eternuridade
Eternuridade, s.f. (do lat. aeternitate por aglutinação com do lat. ternu). Qualidade efémera do que é terno. O que há de eterno no transitório. Afecto muito longo; tristeza suave e demorada. textos e fotos: gouveiamonteiro(at)gmail(dot)com LIGAÇÕES
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6 de Setembro de 2009
.: Publicado por lgm @ 9/06/2009 - 0 Comentário(s)
5 de Setembro de 2009
O nosso líder n´A Natureza do Mal

Quando fazem uma pergunta a uma pessoa normal o que é que acontece? Tentem observar. Ela reflecte um pouco antes de falar. Depois a resposta vai-se organizando com pausas, hesitações, modulações do ênfase.

Experimentem fazer a mesma pergunta a um dos líderes partidários que agora fazem o favor de se debaterem às 20:45 na partilha televisiva. A resposta é imediata, como se já existisse pronta-a-servir nas dobras programáticas do córtex partidário . Pode ser heróica (Jerónimo), pedagógica (Portas), cínica (Sócrates), indignada (Louçã) ou insípida (Leite). Mas está lá, completa, ao gosto das claques, das jotas , dos jornalistas, das perguntadeiras e dos comentadores.

Se acreditarmos que temos os políticos que merecemos, que o povo de votantes segregou eleitos à sua imagem e semelhança, somos responsáveis por estes. Eu sou responsável por Louçã . Vocês pelos restantes.

Não alijo as minhas responsabilidades. Este é o meu país. O país que deixo aos meus filhos, digo para que percebam.

Gostava que o meu líder fosse diferente. Um homem ou uma mulher sábios por terem pensado muito, cultos por terem estudado, modestos por haver certamente homens e mulheres mais sábios e mais cultos, viajados/cosmopolitas por ser esta uma das maneiras de conhecer o Outro e fugir às visões paroquiais, com humor. Capazes de dizer não sei, não faço ideia, não tenho solução para isso, não estou preparado para responder, não quero responder a essa pergunta.

Um líder raro como a gente comum. Capaz de se indignar, mas não em estado de permanente indignação. Capaz de emoção, riso, espanto, surpresa, alegria, esquecimento, fragilidade. Talvez não federasse os broeiros, os facínoras, os adoradores de ídolos, os marchistas, os abaixo-assinados, os carreiristas da Alta Administração com motorista e gestor de imagem, os taxistas, os leitores do Equador, os que admiram incondicionalmente o Camisas. Talvez nunca ganhasse eleições e fosse apenas alguém em quem nos orgulhássemos de votar, uma força, como se diz, indispensável à democracia.

Sentei-me a ler isto como se tivesse feito um esforço violento. Lavado a louça com sabão líquido, prato a prato. Feito as camas no dia da muda. Desentupido o cano do lavatório , pintado as paredes da sala com trincha, escadote e tintas CIN. Fiquei a olhar para os muros amarelos, que foi a cor que ela uma vez escolheu, amarelo da Provença, quase ocre afinal. E pensei: ao que tu chegaste. Propagandista do mesmo –merdismo, esse partido sem imaginação. Devias ser obrigado a beber o veneno que serves às novas gerações.

Mas sabes o que eu queria mesmo? Era que ela me fizesse um bóbó.

.: Publicado por lgm @ 9/05/2009 - 0 Comentário(s)
9 de Agosto de 2009
Enfermaria
Caminho, alegre,
para o meu Rio de Galinhas.
Descobri a minha mulher,
da qual não há fotografias
porque não vos quero,
bandidos,
entusiasmados
de bom gosto com ela.
Sinto-me animado
de estudar para doutor.
O anjo que me ensinou as letras
está-me a dar as ciências.
.: Publicado por lgm @ 8/09/2009 - 0 Comentário(s)
4 de Agosto de 2009
Como um bravo
De volta para o curralinho.
.: Publicado por lgm @ 8/04/2009 - 0 Comentário(s)
30 de Maio de 2009
Elogio do Amor - Miguel Esteves Cardoso
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona ? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo ? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso ”dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
.: Publicado por lgm @ 5/30/2009 - 3 Comentário(s)
26 de Maio de 2009
não era nada disto que eu queria para mim
.: Publicado por lgm @ 5/26/2009 - 1 Comentário(s)
Descontinuado
Quando o Sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa
Ao longo de úa praia deleitosa,
Vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi os cabelos concertando;
Ali, co a mão na face, tão fermosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.

Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura;

Aqui se entristeceu, ali se riu...
Enfim, nestes cansados pensamentos,
Passo esta vida vã, que sempre dura.

Camões
.: Publicado por lgm @ 5/26/2009 - 0 Comentário(s)
21 de Maio de 2009
.: Publicado por lgm @ 5/21/2009 - 0 Comentário(s)
19 de Maio de 2009
O sítio da vergonha alheia

Há uns anos, a propósito de um assunto idiota, deixei aqui duas linhas tortas sobre a vergonha alheia. O google adoptou a ideia. Hoje, com tudo adormecido, quase metade das poucas pessoas que aqui chegam fizeram uma busca por "vergonha alheia". Se a vergonha não é delas, então só pode ser nossa.
.: Publicado por lgm @ 5/19/2009 - 0 Comentário(s)
8 de Abril de 2009
América
.: Publicado por lgm @ 4/08/2009 - 0 Comentário(s)
5 de Abril de 2009


Nesse dia, Carlos andou sempre com o pequeno rectângulo negro suspenso por cima da cabeça.
.: Publicado por lgm @ 4/05/2009 - 0 Comentário(s)
20 de Março de 2009
.: Publicado por lgm @ 3/20/2009 - 0 Comentário(s)
16 de Março de 2009
Bratislava

É a esperança o que mata os animais de salão.
.: Publicado por lgm @ 3/16/2009 - 0 Comentário(s)
Madrid
.: Publicado por lgm @ 3/16/2009 - 0 Comentário(s)
11 de Fevereiro de 2009
Inverno Nuclear

A caminho da fronteira com a Rússia,

assalta uma espécie de perigo.

Trouxe-te neve, outra vez.

Menos quinze, pior é o vento

e humidade, quando há.

A duzentos quilómetros de São Petersburgo,

o dia demora a chegar.

Como se lhe pesasse a cortina

e as janelas estivessem geladas.

Devagar.

Com a velocidade do sol.

Com a pressa das mercadorias para o destino final.

Na copa de uma árvore, um barbudo.

O segredo público de urânio numa cidade fechada,

que não aparecia nos mapas:

Sillamae.

8 milhões de metros cúbicos de lixo nuclear.
.: Publicado por lgm @ 2/11/2009 - 4 Comentário(s)
26 de Dezembro de 2008

Tens tantas cidades, por deus.

Não as podes ter todas branquinhas.

Mesmo que te dessem a neve,

havias de pedir por bisontes

e por cigarros nas nuvens.

E picos emocionais.

O caminho para os grandes mamíferos

atravessa os intestinos da Europa.

Chove, cai um bocado de gelo.

Depois é uma espécie de Japão

branco e muito espaço.

Uma árvore checa.

Uma floresta vermelha,

e então bisontes.

Toma os bisontes.
.: Publicado por lgm @ 12/26/2008 - 1 Comentário(s)
8 de Dezembro de 2008
a terra do meio

Quando duas árvores se juntam
aprendem por fim o silêncio.

Conversa de nevoeiro
entre fogo e incêndio.


Não esperámos pelo urso europeu.
Veio de Itália onde procura instrução.

Os rios da Europa estão gastos.
Cansaço, coluna e população.


Ainda sem neve em Novembro.
Que ano este para a procura da neve.

Frio tem estado.
Alguma chuva também.

Dá com os máximos naqueles patos,
a ver se os consegues levantar.

Vão vocês, salvem-se, eu vou com o barco.
Porque o meu trono são as águas.

No meio do naufrágio construí um barquinho.
.: Publicado por lgm @ 12/08/2008 - 1 Comentário(s)
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